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A OFICINA — ORQUESTRAR, NÃO ENTREGAR

A máquina não inventa do nada: parte dos meus traços. O trabalho não é o pedido — é a conversa, o loop e a orquestração.

Primeiro desfaz-se o mal-entendido, porque é o mais comum e o mais preguiçoso: a máquina não inventa do nada.

O desenho que abre esta entrada não saiu de um pedido escrito a um modelo genérico. Saiu de um modelo base com um LoRA treinado por cima — um adaptador pequeno, uns quantos megabytes de pesos, que empurra o modelo para um vocabulário visual específico. O meu. Traços meus, decisões minhas, proporções minhas. A segunda imagem é o croqui à mão de 27 de Abril de 2025, feito sem máquina nenhuma. É dali que tudo parte. A máquina complementa; não concebe.

Fidelidade tem preço, e a escala é técnica

Há várias maneiras de fazer isto e não são equivalentes. Grosso modo, por ordem de fidelidade e de custo:

  1. Só prompt sobre modelo genérico. Barato, rápido, e devolve a média da internet. Serve para ideias, não serve para documentos.
  2. Prompt + imagem de referência (img2img, condicionamento estrutural). Já obedece à silhueta. Custa uma referência boa e mais iterações.
  3. Prompt + LoRA próprio. Obedece à mão. Custa o dataset, a curadoria do dataset — que é o trabalho verdadeiro — e as corridas de treino até o adaptador parar de exagerar.
  4. Tudo isso dentro de um loop humano, com selecção a cada passo. É o mais fiel e o mais caro em tempo. Não em dinheiro: em atenção.

Onde se para depende do que se quer. Um estudo rápido para decidir uma proporção não precisa de nível 3. Um croqui técnico que vai ao Archive precisa. Tudo depende — e quem disser que há uma resposta única está a vender-te alguma coisa.

O trabalho é a conversa, não o pedido

O ciclo real é este: escreve-se, corre-se, olha-se, corrige-se, corre-se outra vez. Gera-se um lote, guarda-se um. A métrica que interessa não é a qualidade da melhor imagem — é a taxa de aproveitamento do lote, porque é ela que diz se o problema está no modelo ou está no que eu escrevi.

E quase sempre está no que eu escrevi.

É o mesmo que na prova de uma peça: veste-se, vê-se o que puxa, marca-se com alfinete, volta-se a coser. Só que o alfinete é uma linha de texto e a prova custa segundos em vez de uma tarde. Isto é orquestração — sequência, versionamento, selecção, repetição — e é aqui que vive o trabalho. Entregar o problema à máquina e aceitar o primeiro resultado não é usar a ferramenta: é assinar por baixo do que ela devolveu.

Um exemplo, e é técnico

Em quase todos os desenhos as pregas aparecem desenhadas como tecido: caem, drapeiam, obedecem à gravidade. A peça a sério faz o contrário — as lâminas ficam tesas e o punho mantém um túnel de 30 cm aberto, como se vê nas duas últimas imagens.

O modelo não está errado por acaso. Viu um milhão de pregas e nenhuma delas era rígida, por isso desenha o efeito que conhece. A causa está fora da imagem: o material é um sintético grosso de marroquinaria e não um têxtil de vestuário. Isso não se infere de um pixel — está na ficha técnica, escrita por quem esteve no ateliê.

É por isso que o LoRA resolve metade do problema e a outra metade continua a ser minha.

Exclusividade não se compra, alimenta-se

Modelo genérico devolve resultado genérico. Não é defeito — é a definição: um modelo treinado em tudo devolve a média de tudo. Se uma marca quer produzir imagem que mais ninguém consegue produzir, tem de alimentar o seu próprio modelo com a sua própria identidade. Não há atalho: o material é o dataset, o dataset é o arquivo, e o arquivo faz-se a trabalhar.

Que ferramentas, que modelos, que parâmetros — isso fica cá dentro. Não por mistério: porque é a parte que se copia num minuto e demorou meses a afinar.

Uma última nota de custo, para não ficar bonito a mais. Metade desta oficina corre local — offline, sem subscrição, nada sai desta máquina. A outra metade corre na nuvem porque hoje é melhor, e isso quer dizer que é de outra pessoa. Escolhe-se caso a caso, e diz-se qual foi.

OFICINA_01 — CROQUI TÉCNICO · MODELO BASE + LoRA AVELAR
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OFICINA_02 — O MEU CROQUI, 27.04.2025 · À MÃO
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OFICINA_03 — FRENTE E COSTAS · AS PREGAS CONVERGEM ATRÁS
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