↳ System / finished
PROTEGER E DEIXAR DESPROTEGIDO
As coisas que eu forço que sou eu nas colecções, independentemente do tema, da cor ou da tendência. Não é uma lista de gostos — é sempre o mesmo par.
↳ System / finished
As coisas que eu forço que sou eu nas colecções, independentemente do tema, da cor ou da tendência. Não é uma lista de gostos — é sempre o mesmo par.
Dei por mim a fazer outra vez um casaco verde com sistema de telha. Já o tinha feito. Fui ver os croquis novos e os quatro têm telha nas mangas — cotovelo e antebraço, lâminas sobrepostas. A lápis, sem cor, sem pele de cobra. O mesmo sistema.
Não é distracção. São as coisas que eu forço que sou eu nas colecções, independentemente do tema, da cor ou da tendência. São o meu estudo.
Não é só a telha. É também o amarrar a peça que é duas, três, quatro coisas. É o inacabado, o por acaso pensado. Eu procuro formas, volumes, agarrar e afastar, proteger, deixar desprotegido. Há sempre uma relação entre a pele e a roupa, o calor, a frescura.
Escrito assim em fila, parece uma lista. Não é. É sempre o mesmo par:
Não tenho cinco obsessões. Tenho uma, declinada em cinco sítios. E como é uma tensão e não um estilo, não se resolve escolhendo um lado — por isso é que não me larga.
A telha é a única forma que faz as duas coisas ao mesmo tempo. Cobre e deixa passar. Blinda e respira. É armadura com fresta.
Não é um motivo decorativo que me agrada. É a solução mais pura do meu próprio problema, e é por isso que me sai da mão sem eu dar por ela — em pano, a lápis, ou numa imagem que mandei gerar a partir de um croqui meu. A ferramenta muda; a obsessão não.
O amarrar é o mesmo problema noutra chave: a peça que não se fixa numa identidade. E o inacabado também: o acaso é encenado com rigor. O erro vive na expressão, nunca na engenharia.
Era mentira se não dissesse que procuro a beleza e a singularidade como os demais. Só que não é um objectivo assumido de início. Eu penso: vou fazer sempre o meu melhor casaco.
A beleza não é a premissa, é a consequência. Parto do problema — agarrar e afastar, proteger e deixar desprotegido — e ela aparece quando o problema fica bem resolvido. É o anti-design como consequência aplicado à beleza, não uma excepção a ele.
O meu design é esse. Não é o ficar bonito, não é ser mais girly ou mais gentleman. É ter alma. E não olho ao politicamente correcto.
Arrisco muito. Chego ao ridículo. Mas na boa — são experiências, umas melhores do que outras, mas sempre numa direcção.
Fica a parte que não é confortável: esse querer é o que me safa das coisas, e depois é o que faz algumas delas cair para o chão. Não são dois defeitos, é a mesma lâmina vista dos dois lados. “Vou fazer o meu melhor casaco” é o que me impede de parar no suficiente, e é o que me impede de parar quando a peça já disse o que tinha a dizer.
Como tudo o resto neste trabalho, aliás: um par que não se resolve.